8/22/2011

O poeta é um Esfingidor



Acordei com vontade de escrever sobre ela. E eu penso em grande, ao acordar. Oh, a ode que nasceria, arrebatadora e crepitante, um testamento redigido por querubins mas produzido à hora de almoço - coisa que o típico querubim não tem uma vez que, no Éden, comer entre as refeições não enche o pneu.

Oito e meia da noite passadas, pouco mais tenho que ideias avulsas sobre o que hei-de escrever e a sensação de que a referência à "bucha" dos anjos pode ter arruinado a parte épica da obra. Escrever para a mulher que cravou a sua bandeira no meu coração é mais ou menos como encontrar a Esfinge que guardava a passagem para Tebas. Primeiro, pelo jeito felino, pronunciado ao ponto de eu já ter perdido a esperança de poder ir a uma exposição canina. Depois, a parte propriamente esfíngica, aquela sensação que emana dela - quer esteja envolta num vestido de virar pescoços, a esticar-se no sofá ou a rir como um trovão num dia de sol por ter caído ao chão - de que desiludi-la é convidar a morte.

E não uma morte rápida. Uma palavra vulgar ou uma expressão batida não dão direito a uma dentada na cervical, como imagino que a Esfinge fizesse aos que respondiam errado (se engraçasse com eles). Aliás, no que toca a dentadas, acho que é mais certo recebê-las se escrever um bom texto [Nota do autor: PIADA INCONVENIENTE. APAGAR SEM FALTA]. Desiludi-la é receber um corte no ventre, é sangrar e segurar as vísceras até ao próximo momento de inspiração (que, todos sabem, vem mais rápido quando sangramos e seguramos as vísceras).

É assim com as musas. Inspiram-nos, sustêm-nos, sangram-nos e privam-nos. São uma queda e um voo ao mesmo tempo, são uma vida entre um nascer e um pôr do Sol. São sempre o mesmo enigma e damos sempre uma resposta errada. O importante é não deixar de ir a Tebas.

5/11/2011

[2000] Volts de Muitas Felicidades

O meu momento mais transcendente ocorreu no 7º Ano, quando descobri que o excesso de açúcar no sangue me dava a capacidade de decifrar os enigmas das caixas de cereais, uma descoberta que podia ter sido a solução para o meu futuro mas que em vez disso me viu repetir o 7º ano até que conseguisse resolver equações simples sem produzir os ruídos de um esturjão em chamas.

Rídiculo, hã? Não, é ainda mais: ainda que escrito de forma absolutamente crível, o exemplo acima é falso, o que serve para demonstrar que a transcendência e os puzzles dos cereais não são o meu forte.

É difícil para um existencialista (mesmo um que tem medo de o ser) sentir algo transcendente sem uma corrente de 2000 Volts à mão. Isto, claro, torna uma pessoa algo alheada de algumas agruras da vida, mas tem a contrapartida tragicómica de fazer o mesmo em relação às alegrias. Há uma razão para o cinzento ser a minha cor favorita.

Mas existe uma excepção: todas aquelas histórias de cavaleiros e telenovelas brasileiras criaram em mim um desejo ardente de conhecer a mulher da minha vida. Para surpresa minha, conheci. Para ainda maior surpresa minha, o sentimento é recíproco. E, para surpresa mútua, ainda não a perdi num Aquamatrix de inépcia e imbecilidade. Dia após dia, sinto que mereço mais o nosso Amor, que estou a construir não um futuro, mas o futuro que sempre quis e que tem a forma dela.

Perdoem a lamechice. É que este fim de semana ofereci-lhe um anel - e o meu amor eterno, mas o primeiro brilha e chama mais a atenção - e ainda não parei de me sentir transcendente.

4/07/2011

O rapaz que queria ser Sísifo


Agora imaginem que ele cai de cara a cada fila de bancos e ficam com uma ideia.

"I have not yet begun to fight" John Paul Jones, Oficial Naval Norte-Americano por alturas da Guerra Revolucionária contra os ingleses

A arte (tanto quanto um harakiri à auto-estima pode ser artístico) de ser bom juiz de si próprio, sendo uma das mais finas formas de conduta mental, é algo que deve ser incutido no indivíduo desde tenra idade - assim como a música, a leitura, os piropos, etc.

O petiz vai brincando e lidando com as outras crianças em feliz abandono, chafurdando no hedonismo e inconsciência na altura mais própria para tal, até que, de repente, aquela menina sua amiguinha se chateia muito com ele, sem que o menino perceba porquê. Teria dado jeito um pouco mais de reflexão e experiência em pequeno, porque agora o menino já passou os 18 e a menina que nunca mais fala com ele era a sua namorada.

Bom, mas de onde aquela veio, outras fêmeas virão (nas séries estão sempre a dizer isso uns aos outros). Qual é o problema de só agora ter percebido que existem regras para se lidar com outros humanos (bicho estranho), manter a sua confiança, ganhar o seu respeito (bem parecia ao menino que tirar as calças na coluna da discoteca não tinha resultado) e, eventualmente, encontrar o amor? Um dia aquela pessoa cruzará o seu caminho e, sem esforço nem sacrifício, viverão felizes para sempre - se assim não fosse, certamente haveria nas histórias mais minutos de película, parágrafos e episódios dedicados às agruras de um relacionamento com outro exemplar da espécie (bicho estranho).

E lá segue o rapazote - sempre estranhando para onde foi o tempo para brincadeiras que antes era até demais - ciente de já ter percebido a vida. Todos os dias confrontado com as mensagens de sucesso imediato, é fácil chegar à conclusão que o seu talento, a sua inteligência resplandecente e o seu estilo o destacam da multidão como se carregasse um very light no cinto (não aconselhável). Até encontrou o Amor, o verdadeiro, que o faz sentir-se nas nuvens...até descobrir que aquela história de não se poder andar sobre vapor de água se revelar verdadeira.

Nada feito...a falta de jeito a lidar com os outros continua; a traição aos valores que aprendeu de tantos heróis que triunfaram na última página por um qualquer milagre, quando o colocam sob pressão, continua; a constante noção de que pode estar a cometer um erro sempre que abre a boca continua; a noção de que cometeu um erro quando abriu a boca continua; a desilusão daqueles de quem mais gosta consigo continua; aquele episódio que o deixou em pulgas afinal continua para a semana. Mas ele tenta tanto, e por "tenta" entenda-se "quer mesmo muito muito que as coisas corram bem, o que faz todo o sentido quando ele é o mesmo ser cheio de talento, inteligência e estilo de antes, um alfa entre a sua espécie (bicho estranho)". Pobre rapaz...

Pobre, o caralho.

Todos os dias, o rapaz revê a sua vida. Audita a sua conduta. Giza planos e reacções a cada momento passado e promete empregá-los no futuro. Se o espremessem, correriam tratados do comportamento humano, teses académicas sobre acção e consequência, documentários premiados sobre a junção de Jesus Cristo com Einstein e Teddy Roosevelt, retratos de um UltraMegaHomem que fariam Nietzsche e o seu "super" parecer teletubbies castrados, pedaços de osso e restos de órgãos - ele é humano (bicho estranho), afinal de contas. E, imbecil, o rapaz julga que o querer e o perceber bastam. Pensa que um arquivo do tamanho da sua paranóia lhe dará tudo o que precisa para singrar na vida. Prefere andar com as mãos limpas e a cabeça encardida de culpas e remorsos em vez de oleada e pondo em prática o que ele sabe ser a coisa certa a fazer.

Ele olha para cima, vê lanços de escada e filas de bancos até onde a vista alcança, mas que sabe terem um fim. E então corre, subindo, a cada passo tropeçando e provando o doce sabor da aresta de madeira. A cada queda levantando-se e prometendo a si mesmo que na próxima não cai. A fé em si mesmo não morreu e ele sabe ter todas as razões para ser melhor a cada passo...tem amigos, tem família, tem emprego e, acima de tudo, tem à sua espera, uns lances acima, alguém com quem sabe querer fazer o resto do percurso. Ele promete a si mesmo que, custe o que custar, quando a alcançar já não cairá mais...só espera que ela não se importe de beijar um rapaz sem dentes. Aliás, um Homem.

2/02/2010

Praia-mar

As ondas de desconfiança, lucidez e sagacidade que se levantam de cada vez que governo e primeiro-ministro são acusados de algo, como fez hoje Mário Crespo, causam tristeza, acima de tudo. Quanto jeito não teriam dado para que tivéssemos hoje uma república democrática digna desse nome, em vez da "liberdade respeitosa" que Sócrates tanto sonhou que se tornou realidade. Que o governo possa estar, por mérito próprio, pelos dias do fim e uma denúncia tão grave vinda de alguém como Crespo - que, concorde-se com os seus ódios de estimação ou não, está acima da pindérica fabricação de intrigas - ainda seja alvo de tanta desconfiança e teorias da conspiração, é sinal apenas de que o respeitinho está mais entranhado que nunca na sociedade.

A lucidez e desconfiança saudável quer-se sempre. Assim sendo, estamos à mercê das marés.

100 x 365 dias...

...Às vezes um a mais. Salvo excepções cujo impacto parece - injustamente - perdido na negritude actual, os 100 anos de regime republicano representam tão-só uma mostra da mediocridade geral dos líderes políticos em Portugal e, quando ela foi quebrada, o agonizante declínio da sua qualidade cujo fundo parece, lamentavelmente, ainda não ter sido atingido.

Para celebrar, só o termos sobrevivido 100 anos.

1/12/2010

Étiquê?

Um jovem formando da área de gestão, com o discurso e ideias de sempre, ao qual não falta o optimismo que hoje serve de free pass para as altas esferas de tantos sectores, apontou, ainda assim, na sua intervenção, a ética. Outras das pastilhas que, por estes dias, já entram mastigadas em todas as bocas públicas. Mesmo assim, mais vale ser referida, que ainda causa algumas comichões.

Trata logo um dos ilustres convidados de Fátima Campos Ferreira de dizer que a ética não é central ao desenvolvimento económico do país. Para que aprendas, menino. A ética é um entrave ao enriquecimento. E, assim sendo, é um entrave a um Portugal melhor - não, a um Portugal moderno. Tudo o que a mentalidade vigente pretende é levar-nos para o futuro. Que interessa qual?

Nota: O dito formando defende-se valentemente, relembrando, e muito bem, que foi a falta de ética que nos colocou onde estamos hoje. Bravo!