Agora imaginem que ele cai de cara a cada fila de bancos e ficam com uma ideia. "I have not yet begun to fight" John Paul Jones, Oficial Naval Norte-Americano por alturas da Guerra Revolucionária contra os ingleses
A arte (tanto quanto um harakiri à auto-estima pode ser artístico) de ser bom juiz de si próprio, sendo uma das mais finas formas de conduta mental, é algo que deve ser incutido no indivíduo desde tenra idade - assim como a música, a leitura, os piropos, etc.
O petiz vai brincando e lidando com as outras crianças em feliz abandono, chafurdando no hedonismo e inconsciência na altura mais própria para tal, até que, de repente, aquela menina sua amiguinha se chateia muito com ele, sem que o menino perceba porquê. Teria dado jeito um pouco mais de reflexão e experiência em pequeno, porque agora o menino já passou os 18 e a menina que nunca mais fala com ele era a sua namorada.
Bom, mas de onde aquela veio, outras fêmeas virão (nas séries estão sempre a dizer isso uns aos outros). Qual é o problema de só agora ter percebido que existem regras para se lidar com outros humanos (bicho estranho), manter a sua confiança, ganhar o seu respeito (bem parecia ao menino que tirar as calças na coluna da discoteca não tinha resultado) e, eventualmente, encontrar o amor? Um dia aquela pessoa cruzará o seu caminho e, sem esforço nem sacrifício, viverão felizes para sempre - se assim não fosse, certamente haveria nas histórias mais minutos de película, parágrafos e episódios dedicados às agruras de um relacionamento com outro exemplar da espécie (bicho estranho).
E lá segue o rapazote - sempre estranhando para onde foi o tempo para brincadeiras que antes era até demais - ciente de já ter percebido a vida. Todos os dias confrontado com as mensagens de sucesso imediato, é fácil chegar à conclusão que o seu talento, a sua inteligência resplandecente e o seu estilo o destacam da multidão como se carregasse um very light no cinto (não aconselhável). Até encontrou o Amor, o verdadeiro, que o faz sentir-se nas nuvens...até descobrir que aquela história de não se poder andar sobre vapor de água se revelar verdadeira.
Nada feito...a falta de jeito a lidar com os outros continua; a traição aos valores que aprendeu de tantos heróis que triunfaram na última página por um qualquer milagre, quando o colocam sob pressão, continua; a constante noção de que pode estar a cometer um erro sempre que abre a boca continua; a noção de que cometeu um erro quando abriu a boca continua; a desilusão daqueles de quem mais gosta consigo continua; aquele episódio que o deixou em pulgas afinal continua para a semana. Mas ele tenta tanto, e por "tenta" entenda-se "quer mesmo muito muito que as coisas corram bem, o que faz todo o sentido quando ele é o mesmo ser cheio de talento, inteligência e estilo de antes, um alfa entre a sua espécie (bicho estranho)". Pobre rapaz...
Pobre, o caralho.
Todos os dias, o rapaz revê a sua vida. Audita a sua conduta. Giza planos e reacções a cada momento passado e promete empregá-los no futuro. Se o espremessem, correriam tratados do comportamento humano, teses académicas sobre acção e consequência, documentários premiados sobre a junção de Jesus Cristo com Einstein e Teddy Roosevelt, retratos de um UltraMegaHomem que fariam Nietzsche e o seu "super" parecer teletubbies castrados, pedaços de osso e restos de órgãos - ele é humano (bicho estranho), afinal de contas. E, imbecil, o rapaz julga que o querer e o perceber bastam. Pensa que um arquivo do tamanho da sua paranóia lhe dará tudo o que precisa para singrar na vida. Prefere andar com as mãos limpas e a cabeça encardida de culpas e remorsos em vez de oleada e pondo em prática o que ele sabe ser a coisa certa a fazer.
Ele olha para cima, vê lanços de escada e filas de bancos até onde a vista alcança, mas que sabe terem um fim. E então corre, subindo, a cada passo tropeçando e provando o doce sabor da aresta de madeira. A cada queda levantando-se e prometendo a si mesmo que na próxima não cai. A fé em si mesmo não morreu e ele sabe ter todas as razões para ser melhor a cada passo...tem amigos, tem família, tem emprego e, acima de tudo, tem à sua espera, uns lances acima, alguém com quem sabe querer fazer o resto do percurso. Ele promete a si mesmo que, custe o que custar, quando a alcançar já não cairá mais...só espera que ela não se importe de beijar um rapaz sem dentes. Aliás, um Homem.