11/27/2009

Enºação

1. O procurador-geral, Pinto Monteiro, manteve as certidões retiradas das escutas em que Sócrates interveio no frio durante 4 meses sem qualquer explicação. Nesses 4 meses, eleições legislativas e autárquicas. Alguns falam em eleições viciadas. Faço coro.

2. Pinto Monteiro considerou que nessas certidões não haveria indícios de atentado ao estadoblablabla...podia ter enterrado o assunto ali, tinha competência para tal. Mesmo assim, enviou as certidões para o supremo. Não se sabe porquê...

3. ...mas Sócrates deve ter ficado satisfeito, já que Noronha decretou a destruição das escutas na qual se ouça a melodia vocal do nosso pm. Não só das certidões. Segundo dizem alguns juristas, esta decisão atenta contra o estado de direito, uma vez que a defesa de Vara teria interesse em dispor de todos os elementos.

4. O ministro Vieira da Silva, depois secundado por Santos Silva - e com os acabamentos a cargo de Lacão - veio acusar de espionagem política a equipa de investigação do Face Oculta. A ser verdade esta tese...

5. ...ainda bem que os arguidos estavam preparados: parece que foram avisados de que estariam sob escuta da Judite.

6. Vieira Silva vai ao Parlamento nos próximos dias. Não sei o que espere. Mas se Vieira e os outros dois não foram capazes de mostrar a pitada de honra que ainda lhes reste demitindo-se, que o sejam à força nos próximos dias em nada limpa a imagem do governo.

De certeza que o problema são os abusos contra os arguidos?

Riopridades

Amanhã saber-se-á mais, mas a primeira página do Sol refere, sem "alegados", que os arguidos do Face Oculta terão sido avisados de que estariam sob escuta. Um dia depois de Sócrates ter mentido ao Parlamento sobre a PT/TVi.

De certeza que é do segredo de justiça que querem tratar primeiro? Das fugas de informação para a imprensa? Da tal "devassa"?

Mais um verme para o cadáver em que vivemos, isto de ainda ser tabu falar das influências que tanto peixe graúdo tem na justiça e que usa sem contemplações. Como venho dizendo, por inspiração do João Miranda, não temos um estado de direito porque, antes de mais nada, não temos uma justiça que garanta decisões justas. Nem investigações justas. Ou processos justos. Não falo do ponto de vista dos acusados. Falo de justiça no sentido cru do termo. Por isso mesmo, as violações ao segredo de justiça acabam tornando-se quase um instrumento de utilidade pública. E não, a publicação, por um jornal, de parte de uma escuta não é tão grave como os investigados serem alertados para a investigação.

Devassa é o que vemos passar diante dos nossos olhos todos os dias. Como dizia ao Alvim no outro dia, lembra o fim do Império Romano.

11/26/2009

Philozophia de Taverna - perdoai o inglês

Even if it shares the moment of conception, this...enlightenment, if you will, is not born out of the confrontation with the failure and its consequences, not even with the existence of said consequences. Rather, it gestates until the realization that failure is a possible constant in one's life equation fully settles. It is then, when one puts the pieces together and understands that the life-changing nature of the failure that sparked the process not only does not imply that one's conduit will necessarily change, it actually suggest similar failures are likely (based on one's current behaviour) to take place throughout life - to the point of becoming a dominating tone of sorts - that the so-called enlightenment takes hold.


O Pacotilha regressa dentro de momentos.

11/24/2009

Houve um, em tempos...

Se me perguntarem se houve um Prós & Contras realmente interessante, poderei, finalmente e de memória, referir um. O debate de hoje, entre pessoas que percebem do que falam, foi, acima de tudo, excelente ao transpor para linguagem jurídica as principais correntes de opinião que se têm feito ouvir. Fátima Campos Ferreira contribuiu essencialmente atrasando e simplificando demasiado o debate...mas pelo menos não foi tendenciosa.

E, com toda a legitimidade para opinar que lhe assiste, Marinho Pinto voltou a fazer de defensor de Sócrates. Ao ponto de considerar absurdo que um PRIMEIRO MINISTRO (a ênfase é dele) possa ser indiciado por atentado ao estado de direito...Ainda não conheci um advogado ou estudante de direito que goste de Marinho Pinto. Pensando bem, ainda não conheci ninguém que o faça. Não é isso que dá ou não razão a Marinho. Mas isso diz-me que talvez não esteja tudo perdido para os nossos advogados.

PS: Pode ser essencialmente política a opinião de que os motivos para indiciação de Sócrates por parte do juíz de Aveiro. Só mostra ao que chegámos quando isso é necessariamente negativo. "Político" refere-se somente ao teor da intenção. O interesse é de toda a sociedade, porque o que de importante há a revelar é do foro público (e do estado) e não de "conversa entre amigos". Interessa-me pouco o eventual vernáculo de que Marinho Pinto falou: se estiver nas conversas não me surpreende; se não estiver, isso em nada melhora a imagem que tenho de Sócrates. É a vivência quase vegetativa de toda uma sociedade em estado de saturação que me faz, cada vez mais, desejar a revelação da verdade. Não a qualquer preço, mas ao preço do segredo de justiça. Estou disposto a aceitar que há situações em que vale a pena pagá-lo. E a assumir as consequências de futuras violações. Desde que pare o cheiro a podre.

11/22/2009

Um amanhã que nunca vem

Francisco Assis pôs a sua melhor pose de homem de estado para vir dizer palavras mais importantes do que ele próprio. Que aquilo a que se assistiu foi uma tentativa de aproveitamento de um caso judicial para decapitar o governo.

Agora está um senhor do CDS a dizer que o importante é não politizar o processo.

Há gente que não devia ver o amanhã nos mesmos cargos. Aliás, em cargo algum onde possam tomar decisões quanto à vida dos outros.

11/12/2009

As outras bolas

Nisto de Queiroz vs Lopez, foi de facto Ronaldo quem saiu melhor na fotografia, ao recusar assinar uma carta em que dizia não querer representar Portugal. Mas nem a natureza fuinha desta carta (e pressão sobre o jogador para que a assinasse) nem o desrespeito por parte do Real pelas regras da FIFA, ao melhor estilo de barão que tantos clubes têm adoptado perante as selecções, serviu para clarificar o que está em jogo a certa comunicação social.

Queiroz fez tudo bem, e por isso mesmo sai inquinado deste episódio. Por ter ido à luta com um colosso, sabendo que as regras estavam do seu lado. Esteve Ronaldo apenas 3 horas em Portugal? Devem ter sido das mais bem empregues que terá, espero que o entenda. Veio apenas confirmar o que já estava praticamente aceite? Óptimo, a fonte Real Madrid não é de fiar, mesmo que tivesse aqui sido verdadeira. O seleccionador nacional não dormiria descansado enquanto achasse que podia estar a ser enganado. Pior, que não tinha feito tudo para garantir que não o seria. Sendo assim, fez. E pode até falar-se em desgaste da sua imagem. Ainda bem, que é para isso que ela serve.

Do que se deviam lembrar os media e outros que estão apenas preocupados com o "bem-estar do Cristiano", que tem ao seu dispor mais meios de garantia do seu bem estar que incontáveis outras pessoas, é de que, no futebol há mais bolas que aquela em campo e que, ao contrário dessa, devem voltar connosco para os bastidores.

Dias negros


Por vezes sinto falta de quando era extrema-esquerda. De quando, por ingenuidade, confiava em certas personalidades e detestava todas as contrárias. E defendia ideias fervorosamente. Hoje, vejo-me resumido a umas poucas cabeças que me merecem toda a confiança que uma mente (pobre) ciente das limitações humanas pode oferecer, um ódio de estimação que assumo por um primeiro-ministro que, acima de tudo, me envergonha, e constantes contas (de somar, principalmente) às concessões que tenho de fazer por gostar de estar "por dentro" da vida política. É uma merda quando meter as mãos no fogo por quem quer que seja me parece cada vez mais impossível. A cada nova pessoa íntegra, novos ignóbeis e novas provas de velhos ignóbeis surgem e enegrecem o que vejo.

Confesso, por isso, que foi vergonha o que senti quando dei por mim a ser cauteloso perante isto. Sinto que, há algum tempo, não teria hesitado um minuto em apoiar o elementar - mesmo que através de quebra de segredo de Justiça/justiça (?), mesmo que a essa mesma justiça esteja vedado o aprofundamento do caso, as informações sobre as conversas de Sócrates com o amigo Vara, pelos elementos que surgem, oferecem a qualquer pessoa margem para dúvidas, mesmo suspeitas. Ao inverso, ponderei. Se não haveria aqui aproveitamento político. Pois que há, determinei, obviamente. Mas, pior, indaguei se essa natureza política não anulava a pertinência da intervenção Manuelina. Daqui a vergonha.

Quando a negritude da "campanha negra", a diabolização do "aproveitamento/exploração política" e a própria quebra do Segredo de Justiça (que, sejamos francos, sempre existiu - erradamente, claro) toldam não só o senso comum de alguém que, se nada mais tem, é pelo menos consciente, mas a própria estrutura de prioridades que esse alguém tão acerrimamente sustentava...então a vergonha ganha - não é dramatização - contornos de medo. Já aquando da mais que pertinente intervenção de Pacheco Pereira, a semana passada, havia sentido uma ponta de algo que me incomodou. Os que me conhecem sabem que isto me custa, concordem ou não.

O pior que PS Sócrates nos fez, pior que todos os erros e casos em que o governo e o primeiro-ministro se viram envolvidos e que anula qualquer semblante de ordem nas contas, vã modernidade ou reformazecas pontuais, foi isto mesmo. Colocar sobre a actualidade política nuvens negras que não permitem ver mais além (para além de uns quantos empresários estranhamente "optimistas") do que aquilo que os seus criadores pretendem. E depois confundir actualidade política com a vida de um país. Injectar um clima pastoso e denso no qual quem apoia Sócrates nada e os que se lhe opõem ou simplesmente discordam se vêm sufocados e extenuados, acusados de serem velhos do Restelo, maldizentes, radicais, antiquados, e até de serem contra o próprio país. Agora sim, dramatizo, eu que pouco sei sobre as dificuldades da vida, quando afirmo que, porventura, nem mesmo o estado calamitoso em que a partir de 2013 nos encontraremos será pior que esta herança socrática, este smog ilusório que por detrás do brilho de um futuro de tecnologia e pessoas felizes esconde uma mediocridade que em mim causa raiva, um vácuo de verdadeira individualidade que promete tornar mais difícil a boa socialização e, acima de tudo, uma brutal ausência de consciência para a política, a sociedade e a sua pluralidade não só natural mas visceral, a que está a origem do melhor que se pode fazer com alguém: discutir.

Tomara que chovesse.