Acordei com vontade de escrever sobre ela. E eu penso em grande, ao acordar. Oh, a ode que nasceria, arrebatadora e crepitante, um testamento redigido por querubins mas produzido à hora de almoço - coisa que o típico querubim não tem uma vez que, no Éden, comer entre as refeições não enche o pneu.
Oito e meia da noite passadas, pouco mais tenho que ideias avulsas sobre o que hei-de escrever e a sensação de que a referência à "bucha" dos anjos pode ter arruinado a parte épica da obra. Escrever para a mulher que cravou a sua bandeira no meu coração é mais ou menos como encontrar a Esfinge que guardava a passagem para Tebas. Primeiro, pelo jeito felino, pronunciado ao ponto de eu já ter perdido a esperança de poder ir a uma exposição canina. Depois, a parte propriamente esfíngica, aquela sensação que emana dela - quer esteja envolta num vestido de virar pescoços, a esticar-se no sofá ou a rir como um trovão num dia de sol por ter caído ao chão - de que desiludi-la é convidar a morte.
E não uma morte rápida. Uma palavra vulgar ou uma expressão batida não dão direito a uma dentada na cervical, como imagino que a Esfinge fizesse aos que respondiam errado (se engraçasse com eles). Aliás, no que toca a dentadas, acho que é mais certo recebê-las se escrever um bom texto [Nota do autor: PIADA INCONVENIENTE. APAGAR SEM FALTA]. Desiludi-la é receber um corte no ventre, é sangrar e segurar as vísceras até ao próximo momento de inspiração (que, todos sabem, vem mais rápido quando sangramos e seguramos as vísceras).
É assim com as musas. Inspiram-nos, sustêm-nos, sangram-nos e privam-nos. São uma queda e um voo ao mesmo tempo, são uma vida entre um nascer e um pôr do Sol. São sempre o mesmo enigma e damos sempre uma resposta errada. O importante é não deixar de ir a Tebas.
2 comentários:
Quando te escrevo, é mesmo só isso: sou eu que te escrevo. O mais bonito é que o contrário também é assim, mas com a complexidade que te é inerente. E com o teu humor que mais ninguém tem. E com a tua maneira de amar que mais ninguém sabe. É por estes pequenos fragmentos materializados pelas letras, pelo modo como me envolves num porto seguro que criámos para nós, que me sinto a mulher mais feliz do mundo (sim, eu sei, é um cliché). Perdoa a lamechice, mas tenho agora, enquanto te comento, muito presente o companheiro que tens sido nos péssimos episódios que tenho atravessado. Amo-te e isso rouba-me o vocabulário e seca-me o natural domínio da Língua Portuguesa.
Obrigada pelo post, mas principalmente, obrigada por me colocares nesse lugar especial.
Meu amor, já tenho saudades do teu abraço.
ooohhh, tão fofinhos!
Enviar um comentário